domingo, 6 de dezembro de 2015

Palma: um grande potencial

Saudações aos leitores do blog. Hoje falaremos um pouco sobre a palma, planta que tem sido alvo de investimentos e que terá um papel cada vez mais crescente no nosso dia dia nos próximos anos.

Primeiro o que é a palma? É uma palmeira, também conhecida por aqui por dendê. Seus frutos são ricos em óleo, onde se retira o azeite, ou frações desse óleo, gerando a oleína e a gordura de palma. Seu óleo possui qualidade e interesse tanto na produção de biodiesel, como na indústria de alimentos, sendo usada em chocolates e sorvetes principalmente, sendo uma boa opção para substituição da gordura hidrogenada. A planta, originária da Costa Ocidental da África, é adaptada ao clima Equatorial, ou tropical úmido, exigente de alta quantidade de água e de altas temperaturas o ano todo.

Após conhecer um pouco sobre a planta, como ela veio ao Brasil? Ela foi trazida pelos portugueses e plantada na Bahia, onde foi inserida na culinária local (azeite de dendê). Mas, durante muito tempo foi cultura marginal por aqui enquanto lá fora é o óleo mais consumido no mundo soja e sua produção está concentrada 85% entre Malásia e Indonésia.

Então porque de falar sobre a palma sendo que é pouco produzida no Brasil? Exatamente porque esse panorama tende a mudar. A palma é uma planta que leva em média 7 anos para produzir, e após isso consegue seguir em produção por 25/30 anos. A cultura, a partir de 2008, começou a receber grandes investimentos por aqui, principalmente no estado do Pará, que concentra 95% da produção brasileira hoje. O investimento principal advém da Vale, empresa mineradora, por meio de sua filial a Biopalma, cujo interesse é voltado na compensação ambiental de áreas de mineração no estado, assim a empresa banca a recuperação de áreas degradadas, onde se recupera a floresta, e se implanta um sistema de produção dos frutos de palma, podendo também essa produção estar consorciada com a floresta num modelo de SAF (Sistema Agroflorestal). Esse investimento é justificado também como ação da empresa para diminuir emissões de CO2 na atmosfera, já que a Vale planeja a utilização do B20 (20% de biodiesel adicionado ao diesel comum) em toda a sua frota, além do resíduo da usina de biodiesel ser usado na adubação da palma e na geração de energia.

Esse impulso de investimento também se deve a duas causas principais: biodiesel e diminuição do uso de gordura hidrogenada na indústria de alimentos. O óleo de palma para a produção de biodiesel é adequado, porque apresenta boa estabilidade, o único porém é a limitação no seu uso em locais com baixas temperaturas, pois seu alto grau de saturação faz com que a baixas temperaturas o biodiesel possa formar cristais que podem entupir os filtros do motor, assim como o biodiesel de sebo bovino. A palma tem inclusive uma alta produtividade de óleo por hectare, produzindo bem mais que a soja e por ser uma cultura perene, exigindo menos do ambiente e do solo para a sua produção, podendo ser uma cultura chave para o Programa Nacional do Biodiesel (PNPB) na diminuição de custos e na diversificação de matérias-primas.

Além desse uso, existe o uso para fins industriais, para detergentes e cosméticos que não será focado aqui.

O outro uso que tem crescido muito por aqui é na indústria de alimentos, devido as características da gordura de palma se assemelharem ao da gordura hidrogenada, com a vantagem de não haver risco a formação de gordura trans e ser uma gordura natural e mais facilmente digerível pelo corpo humano, não acarretando problemas de saúde, como o colesterol e problemas circulatórios. Há a cogitação da eliminação total da gordura hidrogenada por lei, sendo então a gordura de palma uma ótima opção é um dos caminhos que a indústria encontrou na substituição. Para a produção da gordura de palma, exige-se apenas a separação do óleo, já que basicamente é composto por 60% de oleína(insaturado) e 40% gordura (saturado), que em um processo de fracionamento essas duas fases são separadas.

O óleo de palma também pode ser usado na culinária, apresentando ótima estabilidade oxidativa (isso quer dizer um óleo adequado a frituras), e um óleo rico em carotenóides, que são antioxidantes naturais presente no óleo, que são precursores de vitaminas como a vitamina A e E.

Para fechar, andou circulando algumas campanhas contra produtos que usam a palma em sua composição. Isso se deve porque os dois países que mais a produzem, desmatam suas florestas tropicais, que são em ilhas e possuem espécies raras para plantar a palma. Isso fez esse movimento movido pelo Greenpeace, e gerou um contramovimento que tenta certificar o óleo de palma com origem de plantações que não agridam a fauna e flora local. Uma grande oportunidade do Brasil aproveitar esses investimentos e certificação e colocar mais um produto no mercado, já que por aqui a produção de palma visa ser sustentável é uma opção para recuperar locais degradados.
                                               Frutos da palma onde é extraído o óleo de palma.

Oportunidade não falta, basta ter inteligência para vislumbrar e aproveitar.

Obs: Esse foi o último post de 2015, o blog entra em férias. Gostaria de desejar um Feliz Natal e um próspero Ano Novo a todos os leitores e seus familiares. Em Janeiro retornamos com mais força e energia, obrigado.

http://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2012/06/biopalma-da-vale-inaugura-no-para-primeira-usina-de-oleo-de-palma.html

file:///C:/Users/Samuel/Downloads/Consumer%20Fact%20Sheet-Portuguese.pdf

http://www.agricultura.gov.br/arq_editor/file/camaras_setoriais/Palma_de_oleo/1_reuniao/Programa.pdf

http://www.aboissa.com.br/produtos/view/609/oleo-de-palma.html

http://www.valor.com.br/agro/2728714/biopalma-da-vale-inaugura-usina-de-extracao-de-oleo-de-palma-no-pa

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Diversificação da alimentação e os desafios de alimentos sem contaminação química

Saudações aos leitores do blog. Hoje falaremos um pouco sobre a inserção de novos alimentos no nosso dia a dia.

Hoje observamos um aumento de tipos de plantas, grãos, verduras nas prateleiras dos supermercados ou nas feiras, e também nas dietas e recomendações de nutricionistas e profissionais de saúde. Vemos hoje Quinoa, Amaranto, Blueberry, Goji berry, uma infinidade de chás e outros temperos e produtos. Isso ajuda as pessoas a conhecerem novos sabores e buscarem complementar a alimentação, tornando uma refeição mais rica e colorida, trazendo grandes benefícios do ponto de vista nutricional. Porém, essas plantas novas que foram citadas acima, tem um preço elevado por terem baixa produção ou serem importadas

Figura 1 - Blueberry (Mirtilo)

Com o consumo dessas novas plantas, também se abrem as portas ao produtor, pois cria-se assim, um novo mercado e muitas espécies podem ser adaptadas, ou já são, ao nosso clima e serem cultivadas por aqui. E o preço mais elevado pode garantir uma diversificação e um aumento de rendimento ao produtor.

A adaptação de uma planta a um novo clima pode ser um processo difícil, pode exigir um grande trabalho, desde melhoramento e de criação de variedades, até uma simples elaboração do correto manejo da nova cultura. Essa adaptação pode não ser perfeita e a cultura exigir uma grande quantidade de insumos, a fim de forçar a planta produzir, o que pode gerar impactos no ambiente ou até mesmo, contaminar o alimento como acontece em muitos casos, devido a necessidade do uso de mais produtos químicos no combate de pragas e doenças. Temos diversas plantas adaptadas, como a couve, berinjela e pimentão e casos de excessos de produtos e insumos nos cultivos destas, que são muitas vezes feitos em época errada, aumentam a fragilidade dessas plantas ao ambiente daqui. Dados da Anvisa são limitados a poucas culturas, e o último levantamento foi em 2012, porém, olhando esses dados somados a de outros grupos de pesquisas da área, vemos um nível de contaminação alarmante dos alimentos.

Um outro ponto é que o Brasil possui uma das maiores biodiversidades do mundo, e assim podemos encontrar diversos tipos de frutas, folhas, flores e grãos, que também podem ter um alto valor nutricional, como no caso do caju, que tem bastante vitamina C, assim como a acerola, que também possui outros compostos antioxidantes e o açaí. Têm-se um trabalho maior para se explorar, catalogar e domesticar plantas nativas, mas a adaptabilidade das condições locais poderia facilitar sua produção e sua qualidade, além de ajudar na diversificação da alimentação. Esse trabalho necessário tem sido desenvolvido com as PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), que muita gente acha que é um simples “mato”, mas que pode esconder plantas nutritivas como a beldroega, a serralha e até medicinais como o quebra-pedra. 

Figura 2 - Uvaia, fruto nativo da Mata Atlântica

Figura 3 - Não é açaí, e sim Jussara, fruto nativo da Mata Atlântica

A questão aqui não é criticar as plantas "estrangeiras", pois elas são bem-vindas tanto no âmbito da nutrição como de produção, e sim, tentar mostrar que além destas, existem outros alimentos dentro da nossa própria natureza que não estamos dando o devido valor e que também podem entrar em nossa dieta, aumentando assim, a possibilidade de uma alimentação saudável, uma produção mais sustentável e com menos resíduos de produtos químicos e mais acessível à população.

Algumas frutas nativas pouco exploradas se encontram aqui:
 http://www.nodeoito.com/11-frutas-da-mata-atlantica-que-todo-brasileiro-deveria-conhecer/

E maiores informações sobre PANCs pode ser visto aqui : http://www.jardimdomundo.com/e-essa-planta-da-para-comer/

Aqui o link do PARA (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos): http://portal.anvisa.gov.br/wps/content/Anvisa+Portal/Anvisa/Inicio/Agrotoxicos+e+Toxicologia/Assuntos+de+Interesse/Programa+de+Analise+de+Residuos+de+Agrotoxicos+em+Alimentos

http://cupeid.com/lista-da-anvisa-dos-alimentos-com-maior-nivel-de-contaminacao/





quinta-feira, 19 de novembro de 2015

APPs reserva legal: Perda de área produtiva ou benefício a todos?

As áreas de preservação permanente (APP) e as Reservas Legais são por lei áreas de floresta nativa em uma propriedade. Mas qual a função delas? Apenas cumprir por cumprir ou pode trazer algum benefício a propriedade?

Primeiramente vamos explicar rapidamente o que é cada um. A APP é uma área de floresta em que não se pode haver exploração comercial, isso significa que é uma área de mata que tem a única função a preservação. São APPs as áreas de mata ciliar de rios, nascentes, topo de morros e áreas onde há risco de deslizamentos em encostas íngremes ou áreas suscetíveis a erosão. Já a reserva legal é a área de floresta em que não se enquadra como APP e, portanto, pode ser feito o manejo florestal podendo ser incluída na atividade econômica da propriedade. No antigo código florestal, a área obrigatória de floresta nativa dentro da propriedade só levava em conta a área de Reserva Legal, a APP tinha que ser preservada e não entrava na conta. Com o novo código florestal, as APPs entram na conta da área florestal podendo uma propriedade não precisar plantar, por já ter só em APPs a quantidade de floresta que precisa na área.

E de quantos % da área da propriedade agrícola, por lei, tem que ser floresta? Depende do bioma em que está inserida a propriedade, na Amazônia 80%, no cerrado 35% e nos demais biomas 20%. 

E qual o fundamento de se ter uma reserva florestal dentro de uma área agrícola? Vemos que teoricamente se "perde" uma parte da área para atender a legislação, o que gera muita reclamação por parte dos agricultores, muitos questionando pois não sabemos verdadeiro fundamento disso. Como em muitas coisas no Brasil, há imposição pela lei e nem sempre há fiscalização e informações devidamente repassadas aos atingidos pela nova norma, levando ao processo de negligência e desinformação. Mas há fundamento. As áreas de mata ciliares são importantes na proteção dos mananciais, garantindo que produtos químicos não cheguem diretamente à água, diminuindo a exposição dos rios à evaporação e também a formação de enxurradas e erosão/assoreamento dos cursos d'água. No caso das nascentes, as florestas têm a mesma função, ajudando a não secar e assim permitir e garantir a vida de muitos rios, riachos e córregos. Já a Reserva Legal tem como função principal garantir a biodiversidade na propriedade, o que pode permitir a presença de inimigos naturais, pragas e doenças e ajudar na sanidade das culturas, além de poder ser uma área onde pode haver exploração econômica e até mesmo turística, permitindo assim, uma diferenciação nos ganhos da propriedade, além da preservação ambiental propriamente dita, é claro.

Mesmo assim há questionamentos do tipo: "Esse pedacinho de floresta não resolve nada". Se observar no contexto de propriedade, um pedaço de floresta pode parecer que não resolverá nada, mas se juntar todas as propriedades há sim uma diferença. O grande problema talvez, seja a falta de corredores entre os fragmentos de mata de cada propriedade, ou a formação de áreas conjuntas de APP/Reserva, o que permitiria uma área florestal maior e mais integrada, permitindo assim o aumento da biodiversidade e a resiliência da área florestal. Entende-se que cada propriedade destina uma área diferente a atender a legislação ambiental, contudo, a falta de diálogo e de projetos que possam ajudar a integrar os fragmentos sem prejudicar os produtores rurais chama atenção. Assim, vemos poucos projetos, como os do link e do vídeo abaixo, em que se é possível fazer algo e, desse modo, o ambiente e os produtores saírem ganhando.





Pra finalizar, o aumento de áreas florestais poderia diminuir enxurradas e melhorar a infiltração da água no solo, além de preservar e "ressuscitar" nascentes, ou seja, poderia ajudar no aumento de cursos d'água. Isso associado a crise hídrica que assola o Sudeste do país e várias outras regiões, poderia criar um estoque de água maior nos solos e lençóis freáticos, melhorando a situação dos rios e permitindo uma resistência maior a grandes secas. Há vários exemplos de propriedades, onde após a recuperação florestal, a água retornou ao local trazendo mais vida a propriedade. Nesse site pode ser visto um exemplo: https://www.itaipu.gov.br/meioambiente/reposicao-florestal



Referências:




quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Jardins verticais e aumento do verde em residências e cidades

Saudações aos leitores do blog. Hoje o assunto é sobre paisagismo. Mais especificamente sobre uma mudança de mentalidade e de estilo: os jardins verticais.

A ideia de se fazer um jardim acima do solo remonta de tempos antigos. Na Antiguidade os babilônios tinham os seus famosos jardins suspensos, sendo inclusive, uma das sete maravilhas do mundo antigo.

Passaram-se muitos anos desde então, e com as cidades modernas, há cada vez menos espaço nas moradias e a pessoa que deseja ter um jardim ou algumas plantas em casa, necessita de um pouco de criatividade. Por isso foi-se pensado em se aproveitar as paredes e a ideia pegou, tanto que temos vários tipos e modelos desse jardim.

Mas porque isso, digamos, virou moda? Como já dito, a necessidade de buscar soluções que ocupam menos espaço hoje é muito importante, e um jardim na parede surgiu como opção, permitindo um melhor aproveitamento do espaço. Outro motivo é que com a criatividade pode-se quebrar a monotonia do ambiente, mesclando combinações de estilos de plantas e flores com diferentes cores, trazendo vida ao espaço.

E quanto custa? É algo que varia muito com o tipo, local e tamanho da parede. Há diversos tipos, desde a colocação de um pano específico, formando um painel, tipos em que se pregam vasos na parede, canos de PVC, jardineiras feitas de material plástico e em outros, pode se fixar um painel, portão antigo ou grade de janela na parede e assim colocar vasos fixados ou então plantas trepadeiras que crescem sobre a grade. O local varia muito, podendo ser área externa ou interna de casas, dentro de ambientes fechados de maneira geral, como apartamentos e escritórios, ou em áreas de luz. Os que exigem mais cuidados são os de área interna, pois vão exigir mais manutenção e também o uso da irrigação por gotejamento, que irriga sem deixar a água escorrer, além de fazer o uso de um tecido especial, onde a terra e planta ficam aderidos, evitando a sujeira e facilitando a fixação das plantas. Duas outras opções podem ser a colocação do painel em parede em cima de espelhos d'água e fontes, ou o uso de tijolos especiais durante a construção, que permitem que a parede forme uma espécie de jardineira. Para as áreas externas, qualquer tipo se encaixa e a irrigação pode ser opcional e também existe um modelo com PVC, fazendo um tipo de hidroponia, onde a água circula dentro dos canos onde as plantas são colocadas. As fotos colocadas abaixo irão evidenciar cada sistema para melhor visualização.

E qual sistema é melhor? Preciso contratar uma empresa ou posso fazer sozinho? Não existe um sistema melhor. Existe o sistema que se adequa ao quanto você pode gastar, que atenda suas exigências (necessidade ou não de molhar) e principalmente, o qual esteticamente agradar mais. Todos os sistemas terão pontos fortes e fracos, cabe ao dono do jardim saber qual atende melhor às suas necessidades. Há grandes empresas no setor, inclusive com sistemas e produtos patenteados para essa modalidade de jardim. Porém, pode ser feito por qualquer um, mas ressalto que assim como todo jardim, é importante muita pesquisa e se possível, uma orientação profissional para evitar problemas e assim conseguir escolher bem as espécies e posicioná-las adequadamente no jardim, além é claro, de se observar fatores importantes como sol, chuva, vento, disponibilidade de água, plantio correto e interação entre plantas. Dessa forma evita-se o famoso "barato sai caro" e a pessoa pode desfrutar da beleza de seu jardim durante muito tempo.


Diversas espécies são usadas, de uma simples samambaia até sistemas em que produzem verduras e temperos, passando por flores como gerânios e mini antúrios, sem esquecer das orquídeas, é claro. Isso mostra que não há um padrão, e sim, a vontade de trazer a interação entre plantas e seres humanos, mais verde e vida às cidades.
                                     Combinação de vasos pregados na parede.    
         
                                        Esse mais alternativo feito de garrafas PET.

             Tijolo especial côncavo, onde forma o jardim vertical durante a construção.

                Painel provavelmente afixado em tecido especial em ambiente interno.

                         Horta/jardim vertical feito a partir da fixação de jardineiras.
                                      Grades de janelas usadas como suporte.

                                     Painel formado por diferentes tipos de folhas.

Referências:




quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Um pouco sobre solos

         Saudações aos leitores do blog, hoje falaremos um pouco sobre a importância do solo. Afinal o que é o solo? É apenas aquela terra onde ficam as raízes das plantas, ou ele tem uma importância maior do que isso?

         Primeiramente, uma das funções mais claras do solo é a nutrição e sustentação das plantas. Os nutrientes presentes no solo, a água e os microrganismos benéficos, como bactérias fixadoras de nitrogênio, são absorvidos pelas raízes das plantas. Algumas pessoas até fazem uma analogia das raízes com a boca dos animais. Por isso que adubar, a corrigir e manter o solo úmido contribuem bastante no desenvolvimento das plantas. E maioria das pessoas conhece apenas essa função. Sim, tem mais.

O solo pode evidenciar o passado. A partir das rochas que o formaram, podemos saber o que existia há milhões de anos atrás em um mesmo local. Por exemplo, São Paulo já foi um deserto, ou então podemos saber as regiões em que houve o grande derramamento basáltico, que formou algumas "serras" em SP, como a serra de São Pedro. Na verdade, essa formação advém dessa grande erupção vulcânica, que permitiu a formação de solos muitos férteis na região de Ribeirão Preto. Além disso, o solo é uma das ferramentas que determinam a vegetação. Em solos mais pobres percebemos que cresce uma vegetação mais baixa e menos densa, como a dos cerrados. E em solos áridos, uma outra vegetação mais pobre. Mas o solo sozinho não determina a vegetação, isso depende também da posição do relevo e do clima.

E tem mais. A preservação do solo é um fator muito importante, pois a perda de suas camadas superiores em grandes chuvas por exemplo, pode acarretar em perda do potencial produtivo do solo e diminuir a sua capacidade produtiva, além, é claro, desse solo virar sedimento e ser arrastado para as estradas e inclusive leitos de rios, podendo causar assoreamento dos mesmos. Fora que, o arraste de sedimentos leva a camada adubada e mais produtiva do solo, levando consigo elementos como nitratos, que podem contribuir com a eutrofização e poluição das águas.

Já deu para perceber importância dos solos, eles têm tido um grande destaque para novas técnicas de manejo, de modo que seja cuidado de uma forma melhor e atinja o máximo de sua produtividade.

Mas, ainda assim há problemas, como o excesso do uso de adubos solúveis, poluição de lençóis freáticos, salinização e erosão, e isso tudo devido a uma questão simples até: O solo não é tratado como um organismo vivo, e sim como uma caixa, onde colocamos o adubo e a água, e as plantas apenas retiram o que precisam, depois, repomos com mais adubo e água. O solo na verdade possui vida, pois é também onde se proliferam microrganismos, insetos, minhocas, que são importantes na construção da produtividade do solo. Um solo árido não possui essa riqueza de seres vivos, diferentemente de um solo fértil de floresta. Então, cuidar para manter o solo vivo é uma das chaves para preservá-lo e buscar utilizar todo seu potencial.

E como se preserva o solo e o mantém vivo? Fazer uma análise tanto química quanto física é o primeiro passo. Assim, consegue-se ver qual a necessidade e planejar ações. Mas como todo processo natural, essas ações levam tempo para mostrar resultado e não é em apenas uma safra que o solo milagrosamente vai se recuperar. A fertilidade e um solo produtivo e conservado se constrói. No sistema de plantio direto se percebeu isso, leva-se em alguns casos até 10 anos para atingir uma estabilidade de produção e um sistema produtivo, digamos, " se encaixar".

Com a análise química podemos adubar corretamente, evitando a lixiviação e salinização do solo. Outro fator importante é a rotação de culturas, com adubos verdes formando cobertura morta no solo, protegendo de chuvas e aumentando a atividade dos microrganismos e insetos do solo, que vão degradar essa cobertura morta.  Também usando leguminosas, a fixação natural de nitrogênio desse tipo de planta pode contribuir na adubação natural do solo. Isso, com o tempo, melhorará as condições do solo e permitirá um uso menor de adubos, gerando economia e contribuição ambiental. Por isso que, na pauta de muitos debates ambientais, se fala do uso e manejo correto do solo, por ele ser um dos elementos chaves da preservação ambiental, devido a possibilidade de um menor uso de fertilizantes sintéticos que são altamente poluentes no ambiente.

Dessa forma continuaremos preservando o solo, os recursos hídricos e mantendo um bem valioso, que nos sustenta, nos alimenta e nos traz vida. Por isso, temos que ter consciência do uso do solo e entrar na luta pela sua preservação e correto manejo.

Referências:


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O frango e os hormônios

Saudações aos leitores do blog. O assunto de hoje é bem conhecido de boa parte das pessoas. Quem nunca ouviu a frase: " Nossa os frangos crescem rápido hoje em dia, imagine a quantidade de hormônio!" e isso se propagou como se fosse algo absoluto, mas será que o frango recebe hormônio para crescer mais rápido?

Primeiramente quanto tempo leva para um frango, em um galinheiro comum onde os animais crescem livres, crescer e ser abatido? Chega até 6 meses em alguns casos, mas na produção orgânica atual leva um mínimo de 81 dias para o frango ser abatido. E no sistema de granjas? Antigamente, na década de 1950, levava uma média de 90 dias. Atualmente se leva em média 44 dias, sendo que em algumas granjas se leva 40 dias para se abater o frango, ou seja uma redução de até 1/3 do tempo em relação a 1950.

Então essa redução de tempo de ganho de peso do frango para poder ser abatido só pode ser hormônio certo? Errado. Esse ganho de tempo está muito relacionado com o melhoramento genético. Houve um grande avanço nessa área na avicultura, em que houve um grande e bem feito trabalho, o que permitiu selecionar raças que ganham peso mais rapidamente e que são mais resistentes a problemas sanitários. Só nessa área permitiu uma queda gradativa no tempo médio para abate. Além disso, houve avanços na área de nutrição animal, onde se conseguiu elaborar uma melhor dieta aos animais, mais balanceada, o que permitiu um melhor aproveitamento dos alimentos pelos animais e uma melhor conversão em peso. Também houve avanços no manejo do ambiente nos galpões dos frangos e na parte sanitária, em que a evolução permite uma carne de qualidade, livre de contaminações e uma melhor saúde dos frangos na granja.

Se isso ainda não o convenceu, a legislação brasileira não permite o uso de hormônios em aves, e há um programa de intensa fiscalização e análise das carnes de frango e não têm sido encontradas amostras dessas carnes que apresentem indícios ou resíduos de uso de hormônios para crescimento. Esse programa, gera um selo que vai na embalagem do frango informando ao consumidor que a carne foi produzida sem o uso de hormônios.

Mas então de onde pode ter surgido essa "especulação"? Com essa diminuição do tempo para ganho de peso, a cadeia de produção de carne de frango ganhou muito em produtividade. Isso fez com que caíssem os custos e a oferta de frangos aumentassem, tornando a carne de frango vantajosa ao consumidor. O setor de carne bovina, vendo esse aumento de consumo da carne de frango, pode ter auxiliado na disseminação dessa "desinformação" como estratégia, criando um marketing negativo tentando frear o consumo de carne de frango. Mas, isso é apenas especulação do blog, não tem nada comprovado sobre isso.

Alguns grupos que valorizam uma produção mais justa e que se preocupa com o bem-estar animal, compraram a ideia, muitas vezes na inocência, para tentar provar o seu ponto de vista contrário à carne de frango. A grande questão contrária reside na superlotação de galpões e falta de liberdade aos animais, o que faz a com que seja necessário um rigoroso controle fitossanitário, afim de se evitar epidemias nos frangos e para que isso não ocorra alguns produtores podem fazer o uso indiscriminado de muitos antibióticos, o que pode causar a seleção de bactérias resistentes a esses antibióticos utilizados. A superpopulação dificulta a movimentação dos frangos e, com a ração farta e próxima, facilita a engorda dos frangos. A crítica reside nesse uso de superpopulações e na falta de liberdade para os frangos poderem se movimentar e ciscar.  Para isso existem sistemas mais naturais, como o orgânico, em que os animais crescem livres e em menores populações em cada galpão que dormem. O uso de antibióticos é bem menor (só em casos em que são realmente necessários), os animais se alimentam tanto de ração quanto do que ciscam durante o dia, e com essa movimentação os animais gastam mais energia, fazendo com que sejam necessários mais dias para a engorda.

         A figura de cima é de uma granja orgânica e a de baixo granja convencional

        
          A cadeia da carne de frango não é perfeita e apresenta alguns problemas, porém, na parte que concerne controle de qualidade e não uso de hormônios de crescimento nos animais, essa cadeia tem atuado muito bem e necessita manter e até mesmo intensificar esse controle para continuar produzindo sem hormônios e atrair mais a confiança do consumidor em seu produto. Mais informações sobre esse controle a última referência pode ajudar a dar mais detalhes.


Espero que as pessoas usem outro argumento para não comer carne de frango.

Referências: 

http://www.em.com.br/app/noticia/economia/2014/12/15/internas_economia,599529/criadores-de-frangos-utilizam-tecnicas-que-reduzem-a-metade-o-tempo-para-abate-das-aves.shtml

http://www.sindpzoo.org/news/hormonio-em-frangos-e-mito/

http://www.guaraves.com.br/?page_id=20

http://www.fiesp.com.br/indices-pesquisas-e-publicacoes/iniciativas-sustentaveis-korin/

http://www.agricultura.gov.br/animal/especies/aves

http://www.agricultura.gov.br/animal/dipoa/dipoa-consumidor/mitos-fatos

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Óleo de coco: mais uma opção em uma dieta saudável?

      Saudações aos leitores do blog. O óleo de coco tem levantado bastante incerteza na comunidade acadêmica, e para muitos nutricionistas e programas de televisão ele tem sido mostrado muitas vezes como melhor que os óleos de soja por exemplo. O que há de verdade em tudo isso?

         Primeiramente da onde vem o óleo de coco e qual sua composição? Vem, como o nome já diz, do coco fruta. O coco é colhido e processado em até 48 horas para a obtenção do melhor óleo, após esse período começa um processo de degradação no óleo, devido ao processo de respiração do fruto, o que faz ele perder suas características e sua qualidade. Para manter suas características e sua qualidade organoléptica o óleo é extraído por prensagem a frio, assim como o azeite de oliva extra virgem, sendo o óleo de coco rotulado também como azeite de coco extra virgem. A composição do óleo de coco é predominantemente saturada, aproximadamente 87%.

Mas, as gorduras saturadas não são as que fazem mal? Em tese sim, as gorduras saturadas são as que devemos consumir menos (20 g diárias em uma dieta normal), pois em excesso podem contribuir para o aumento do colesterol ruim (LDL) que pode acarretar entupimentos de vasos e possíveis problemas como enfartes e AVCs. Porém, temos uma quantidade dessas gorduras que devemos ingerir, afinal elas têm uma função, principalmente hormonal, muito importante no nosso organismo. Devemos ingerir 50 g de gordura total, dessas, 20 g de saturadas. É importante ressaltar isso, temos que ingerir os dois tipos de gordura, porém, em maior quantidade a gordura insaturada. Se ingerirmos mais gordura que o recomendado, mesmo que seja do tipo insaturada, isso pode acarretar problemas, porque o excesso de gorduras insaturadas também podem, além da obesidade, trazer outros problemas de saúde.
Composição dos óleos vegetais.

Então pode ser ingerido o óleo de coco sem problemas? Com muita moderação ele pode ser usado sim, como complemento para dar sabor à pratos e também como fonte de gorduras saturadas. Se sua alimentação é balanceada, e você leva uma vida ativa, com atividade física, nada impede sua ingestão leve, de uma pequena colher ao dia, como complemento de gorduras saturadas.

Complemento de gorduras saturadas? Como assim? A gordura presente no coco é predominantemente ácido láurico (12:0). Os ácidos graxos saturados de cadeia mais curta, em especial o láurico, podem trazer uma série de benefícios ao corpo humano: ele auxilia no sistema imunológico, pode ajudar na regulação do colesterol, emagrecimento, na sensibilidade de insulina e ajudar o controle de diabete e da tireóide. Tem boa função dermatológica, pode atuar na regulação do intestino e também atuar na diminuição da fadiga crônica e fibromialgia. Todos esses benefícios que estão sendo melhor pesquisados não podem ser simplesmente perdidos. Então, numa alimentação saudável, acompanhada de atividade física e uma dose pequena diária, o óleo de coco pode ser sim bem-vindo na dieta, complementando os ácidos graxos saturados na dieta com predominância do ácido láurico, juntamente com o ômega 3 e 6 advindos dos outros óleos vegetais.

Agora nesse ponto que quero tocar. Há muitos sites, empresas, nutricionistas, médicos, artistas e tantos outros que tem feito um grande alarde sobre usar o óleo de coco ao mesmo tempo em que criticam o uso do óleo refinado. Falam em substituição dos óleo refinados pelo óleo de coco. Primeiro ponto: como já mostrado, o óleo de coco sozinho não supre a nossa cota diária de gordura insaturada, comprovadamente benéfica ao coração e essencial (nosso organismo não produz). Se a dona de casa usar óleo de coco, numa alimentação pobre em pescados e muitas vezes rica em comidas não saudáveis, além de sedentarismo, isso pode ser um tiro no pé. O óleo de coco é mais calórico e pode prejudicar mais do que ajudar, nesse caso. Segundo ponto: preço. O óleo de soja 1 litro custa 5 reais. O de coco custa em torno de17 reais, 200 ml, é mais caro até que o azeite de oliva muitas vezes importado. É insustentável atualmente substituir o óleo refinado de soja pelo de coco, o gasto seria muito grande. Terceiro ponto: óleos refinados fazem “mal a saúde”. O processo de refino remove dos óleos diversos compostos, dentre eles os fosfolipídeos (que no caso da soja originam a lecitina), compostos aromáticos, antioxidantes e vitaminas, além de compostos como ácidos graxos livres, água e alguns outros compostos que podem acelerar a degradação do óleo, que acarretaria no seu menor tempo de validade e limitando seu uso. Então o processo de refino não "estraga" o óleo, não hidrogena, nem modifica, é um processo que remove tudo o que não é óleo. O maior problema do óleo refinado é que, devido ao seu alto teor de insaturados, o óleo fica altamente suscetível a oxidação. Com isso, são adicionados dois tipos de antioxidantes artificiais ao óleo refinado, TBHQ e BHT, e que, se usados em excesso podem se acumular no organismo, sendo cancerígenos. Por isso se limita o uso, e muitas indústrias e universidades tem buscado, através de pesquisa, o uso de antioxidantes naturais. Há ótimos exemplos do uso de canela, pimenta, cravo, tomilho, orégano, acerola, em que se extrai esses compostos antioxidantes que auxiliam o óleo e não são prejudiciais a nossa saúde.

Se eu usar o óleo refinado vou morrer? Não. Há uma intensa fiscalização e não há indícios de que estão utilizando acima do limite o TBHQ e o BHT, pode continuar a usar sem problemas o óleo refinado. 

Então sobre o óleo de coco, o que podemos afirmar dele? Não é um milagre. Aliás, como já afirmei em outros posts: tome cuidado com palavras fortes como: veneno, milagre, santo remédio. Coloque um pé atrás, pois isso não é uma maneira científica de se argumentar a favor ou contra algo. Ele é um óleo rico em gorduras saturadas, por isso é estável mesmo sendo extraído a frio e não sendo refinado. Possui ácido láurico que pode trazer benefícios a saúde, mas, por ser altamente calórico, sua ingestão deve ser moderada e acompanhada de uma dieta saudável. 

E você leitor, o que decidiu do assunto?

Referências

SILVA, Raquel; FORTES, Renata; SOARES, Henrique. Efeitos da suplementação dietética com óleo de coco no perfil lipídico e cardiovascular de indivíduos dislipidêmicos. Brasília méd, v. 48, n. 1, 2011.

SICHIERI, Ana Paula Marques Pino. Potencial antioxidante de extratos de especiarias em sistemas modelo e na estabilidade oxidativa do óleo de soja. 2013. Dissertação (Mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos) - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2013. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/11/11141/tde-16122013-145802/>. Acesso em: 2015-10-15.

REGITANO-D`ARCE, M. A. B. Extração e refino de óleos vegetais. In: OETTERER, M.; REGITANO-D`ARCE, M. A. B.; SPOTO, M. H. F.Fundamentos de ciência e tecnologia de alimentos. São Paulo: Manole, 2006a. p. 300-351.


http://www.aboissa.com.br/produtos/view/614/oleo-de-coco.html
http://noticias.r7.com/saude/noticias/oleo-de-coco-e-pura-ilusao-para-perder-peso-e-pode-aumentar-o-colesterol-20120330.html?question=10#quiz
http://www.minhavida.com.br/alimentacao/tudo-sobre/16776-oleo-de-coco-a-gordura-que-emagrece
 http://www.eufic.org/page/pt/page/energy-gda/
http://pt.slideshare.net/fabiohpaes/10-h00-2907-eduardo-cavalcanti-int-noticias-trocar-link-banner

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Transgênicos: muita discórdia e pouca informação

Saudações aos leitores do blog, hoje falaremos um pouco de um assunto que sempre levanta muita polêmica e tem sido alvo de muitas informações e opiniões superficiais prejudicando o debate sobre o tema transgênicos. Vamos começar?
Primeiramente o que é transgênico e como surgiu? Os organismos transgênicos recebem a inserção de um gene exógeno, ou seja, pertencente a uma espécie diferente. A transgenia e o melhoramento genético de plantas são processos distintos que buscam o mesmo objetivo: a melhoria das características de campo e o aumento de sua produtividade. Com isso, esses dois processos são muito confundidos, como vimos no post anterior. O melhoramento é um processo em que se cruza diversas variedades de plantas na busca de uma melhor característica procurada. Esse processo é realizado desde o início da agricultura e pode ser feito arcaicamente ou com uso de técnicas mais modernas de mapeamento genético. Já a transgenia é um processo que foi criado pelo homem e sem ele não ocorreria, sendo, portanto, artificial.
No pós-guerra, ocorreu o advento do uso de produtos químicos e a intensificação do uso da mecanização e de adubos, porém, o “milagre” feito pelo uso inadequado destes produtos, criou uma grande pressão de seleção e contaminações comprovadas, sendo a mais famosa a acumulação trófica do DDT na águia real americana, que é um dos assuntos tratados do livro: “A primavera silenciosa” de Raquel Carson em 1963. Esse livro trazia à tona os efeitos do DDT nessa ave, que tinha sua reprodução prejudicada por se alimentar de animais que já apresentavam altas taxas de contaminação por esse inseticida, indicando então, seu uso em grande escala. Com essa exposição fortemente negativa, as indústrias químicas ficaram com suas imagens bastante prejudicadas, pois seus produtos eram vistos com grande negatividade pelos consumidores, e a pressão na busca por alternativas cresceu muito.  Essa mudança ocorreu também pela reunião da ONU de meio ambiente que começou em 72, e é realizada a cada 10 anos (Em 92 ela foi realizada no Rio, a ECORIO92).
Com esse problema, as empresas encontraram uma solução pela observação de um fato: na busca por alternativas, a espécie Bacillus tunigienses começou a ser utilizada para controle de pragas com boa eficiência diminuindo o consumo de inseticidas. Com isso, as empresas pensaram na ideia de criar uma planta que conseguisse ter a resistência a pragas e combatê-las, como essa bactéria. Era assim que se iniciava a ideia dos transgênicos. Contudo, haviam entraves a essa ideia, as indústrias químicas precisavam se unir às de sementes, que eram separadas na época, para assim, conseguirem a produção dessas espécies geneticamente modificadas. Dessa forma, na década de 80 e 90 ocorreu a compra de indústrias de sementes pelas indústrias químicas e foram criados centros de engenharia genética (biotecnologia) para incrementar as pesquisas e criar variedades transgênicas. Atualmente, temos os transgênicos com gene RR (Roundup Ready), resistentes a molécula glifosato, um herbicida pouco tóxico e não seletivo usado no controle do mato. Já o gene Bt (Bacillus tunigienses) controla insetos, principalmente lagartas, reduzindo o uso de inseticidas.

Mas o que isso afeta na produção? Significa aumento de produtividade a curto prazo e possíveis rendimentos maiores com economia de processos. Com a tecnologia Bt o produtor aplica menos inseticidas, e com isso, economiza na compra desses produtos e no diesel que seria utilizado na aplicação. Assim, o agricultor tem um calendário menos apertado, além é claro, do ganho ambiental com o menor número de aplicações de inseticidas. Já no caso da tecnologia RR, a planta é resistente ao glifosato, como já dito acima, e isso faz com que, ao invés do produtor aplicar diversos herbicidas para controlar diferentes tipos de plantas invasoras, ele aplica somente um. Isso gera economia de aplicações, diminuindo o gasto de diesel, e a aplicação de um herbicida pouco tóxico na escala de toxicidade da ANVISA, podendo haver um ganho ao produtor em tempo e praticidade, além de um possível ganho ambiental com o uso de um herbicida menos danoso ao ambiente, ao invés de um usar um cartel de herbicidas, sendo muitos deles altamente persistentes no ambiente. Outro tipo de transgenia foi a produção de vitamina A pelo arroz no Sudeste Asiático evidenciando que futuramente, com a transgenia, podemos ter plantas mais produtivas e nutritivas, já que o processo de alteração genômica é mais rápido que o melhoramento genético e mais abrangente, já que podemos criar plantas com características difíceis ou quase impossíveis de se encontrar no gene natural da maior parte das plantas cultivadas atualmente.

Mas se parece tão positivo, porque falam tão mal? Primeiro, já foi dito o desconhecimento da maior parte das pessoas da diferença entre melhoramento genético e transgenia. Com isso, somado ao temor a grandes empresas nos processos artificiais e na ingestão de alimentos não naturais, as pessoas ficam receosas ao assunto. Há sim pesquisas falando sobre a possibilidade dos alimentos transgênicos serem instáveis e contaminar o nosso material genético podendo causar tumores, porém nada foi comprovado em seres humanos. Outros problemas são os possíveis impactos ambientais, pois os animais podem ser afetados ao consumir o transgênico, principalmente aves, e no caso do gene Bt, a fauna de insetos nativos pode ser muito afetada, gerando um possível desiquilíbrio ambiental. O glifosato está sendo usado em excesso, causando a seleção de plantas resistentes, como a buva, diminuindo a eficiência e fazendo com que o produtor necessite recorrer a herbicidas mais tóxicos novamente. Além disso, o glifosato quando é muito utilizado pode causar uma série de doenças, conforme estudos da comunidade europeia. Com isso, vemos que as plantas transgênicas causam uma forte pressão de seleção por serem espécies que têm pouca variedade genética. Por causa disso há a “quebra de resistência” mais rapidamente, caso que já vemos com as lagartas em milho e algodão Bt, havendo a necessidade do lançamento de um novo Bt por parte das empresas. Isso demonstra que os transgênicos podem não estar sendo aproveitados da melhor forma possível. E também, o pólen das plantas transgênicas pode contaminar plantas não transgênicas, e além disso, pode contaminar o meio natural, podendo ter consequências e desequilíbrios, fato ainda não comprovado. O que foi comprovado é que essa contaminação de pólen contaminou os cultivares crioulos de milho no México, cultivados há milhares de anos pelos povos que lá residem. O México é centro de origem do milho, por isso há uma diversidade de variedades de milho gerando diversidade gênica, muito importante para o melhoramento genético. Com a contaminação, uma grande quantidade de genes pode ter sido perdida, acarretando grande danos ao próprio ser humano e a agricultura.

Quais países usam? No Brasil, EUA, China, Argentina, Canadá e em outros países, o transgênico é liberado. Na Europa e Japão há resistência e proibições ao uso da tecnologia.

Os transgênicos no Brasil, como é regulamentado? O Brasil tem controle tanto da pesquisa quanto do cultivo de espécies transgênicas. A CTNBio é uma comissão que tem representantes de praticamente todos os segmentos da sociedade brasileira, e ela utiliza normas e leis relativamente rígidas. Este tipo de controle tem aspectos positivos e negativos; para as empresas que trabalham com transgênicos, representam dificuldades e maiores exigências de investimentos em tempo, pessoal e pesquisa; para a sociedade, representa uma segurança maior para a saúde humana e para a preservação ambiental. Com isso, demora-se 2 anos para a variedade transgênica ser liberada após anos de estudos. O que se questiona é, se até agora não se conseguiu identificar ao certo possíveis impactos com mais de 10 anos de estudos, será que só dois anos são suficientes para se liberar essa variedade atestando que é segura do ponto de vista ambiental, social, econômico, nutricional e do ponto de vista da saúde? Mas, como é um órgão de confiança, neutro e reconhecido, podemos ter então um pouco mais de certeza no uso e controle desse tipo de tecnologia.

E o que podemos concluir com toda essa informação? Esse blog tem como objetivo trazer mais informações com qualidade, para as pessoas tomarem uma decisão melhor, com melhores argumentos. Nesse caso, o blog tentou passar uma visão neutra, até porque compartilha dessa visão para esse assunto. A maior parte dos malefícios e danos dos transgênicos tem poucas provas científicas, e apesar dos ótimos benefícios, usar essa tecnologia sem o devido cuidado pode ser um grande desperdício no fim. Então fica a frase de um professor moderadamente contrário, em que ele afirma que na opinião dele, os transgênicos são uma grande tecnologia, que pode vir a ser muito útil e importante, porém é preciso ter cautela e cuidado para não desperdiçá-la ou cometer um grande erro que leve a um grande impacto.

Referências:

Abreu, A. A. (organizador). Seminário Internacional Transgênicos no Brasil. São Paulo, Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, 2005, 308 p.

http://info.abril.com.br/noticias/ciencia/2013/11/primeiro-arroz-transgenico-sera-lancado-comercialmente-ate-2016.shtml

http://www.agricultura.gov.br/vegetal/organismos-geneticamente-modificados

Carson, R. (2002). Silent spring. Houghton Mifflin Harcourt.

http://descubra.monsanto.com.br/sustentabilidade/


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Canola: uma planta quase lendária

Nesse post inaugural do blog vamos falar já de uma planta que virou moda falar mal, a canola. Nesse post tentaremos esclarecer um pouco, quebrando alguns mitos que tem sido espalhados por aí, além de tentar explicar os motivos de tantas pessoas falarem mal dessa planta.

Primeiro mito: A canola não é uma planta e seu óleo existe graças a uma invenção da indústria química. As vezes leio algumas coisas na internet e penso: "Uau quanta criatividade! Poderíamos criar muito mais coisas no nosso País." Realmente não sei de onde surgiu isso, mas a canola é sim uma planta, e muito bonita por sinal. Quando a planta floresce o campo é tingido de um amarelo vivo, um espetáculo à parte. Após a flor, forma-se um fruto seco, que são pequenas bolinhas pretas, que se pegarmos percebemos sua oleosidade. Portanto o óleo de canola não é uma invenção, e sim extraído da semente de canola, aderida ao fruto seco.
Campo de canola florido

Segundo mito: A canola na verdade é oriunda da colza, uma planta tóxica aos humanos devido ao ácido erúcico. Essa é uma bela meia verdade. A colza é uma planta que possui um óleo muito semelhante ao da canola, mas possui um composto, que é natural da planta, chamado ácido erúcico que realmente é tóxico aos humanos. Isso impossibilitava a utilização da colza, e seu óleo, apesar de sua ótima composição, rica em ácidos graxos insaturados(gordura polinsturada), só podia ser utilizado em fins não alimentícios. O Canadá então lançou um programa de melhoramento genético para gerar uma variedade de colza, livre do ácido erúcico. Conseguiram, e adivinha o nome? Canola, isso mesmo! CANadian Oil Low Acid, significando que a canola é um tipo de colza que passou pelo processo de melhoramento genético, que faz com que esse novo tipo de colza produza ácido erúcico a níveis bem baixos, dentro do considerado seguro para o FDA (equivalente a Anvisa no Brasil) e orgãos europeus de segurança alimentar, para o consumo humano. Então a canola tem sim um nome oriundo de marketing, mas, ao mesmo tempo, ela foi liberada ao consumo pois tem um óleo tão seguro quanto o de soja. Aliás, é uma cultura muito cultivada na Europa e muito consumida por lá, além de ser a principal matéria-prima para a produção de biodiesel no continente.

Terceiro mito: A canola é uma colza feita por transgenia. Isso gera muita confusão. Melhoramento é o simples cruzamento de plantas (em campo) e a seleção das que possuem as melhores características que desejamos produzir. Já a transgenia é a inserção de um gene de outra espécie na planta para criar essa característica artificialmente. No caso a canola não é transgênica. Mas existe um tipo de canola, que igual ao milho, soja e algodão, possui o gene RR, de resistência ao herbicida Roundup da Monsanto (Glifosato). Essa sim é transgênica, igual a soja e o milho, que igualmente encontramos o óleo no mercado e curiosamente muitas pessoas consomem sem problema algum mesmo sendo oriundos de plantas transgênicas. Porém a canola que é produzida no Brasil não apresenta esse gene RR, sendo então proveniente de melhoramento genético natural.

Quarto mito: O refino do óleo de canola é mais intenso e "modifica" o óleo tornando perigosa sua ingestão. Na verdade a canola teria esse "refino mais intenso" para retirar o ácido erúcico. Mas como a planta já produz pouco não faz sentido. O processo de refino do óleo de canola é o mesmo que o da soja, do milho, do girassol. Sim, isso retira compostos desejáveis como antioxidantes naturais e algumas vitaminas, mas isso acontece em todos os óleos refinados, e mesmo assim eles ainda possuem diversos benefícios, como o alto teor de ácidos graxos insaturados, que podem ajudar a circulação e a prevenção de doenças cardiovasculares entre outros. Se não quer óleo refinado, há opções de azeites gourmet, desde que esteja disposto a pagar um pouco mais para se consumir também os antioxidantes e outros compostos retirados no refino.

Vendo esses argumentos, por que então a canola é tão criticada e rodeada de mitos, defendido e aplaudido como se fossem verdades absolutas?

Hoje há um grande problema: a internet. Nela se pode falar o que quiser, e alguns profissionais se aproveitam da influência de sua profissão e "conhecimento" e começam a perpetuar opiniões de forma como se fosse verdade. Com a canola acontece isso. Leram sobre ela, mostraram uma parte das informações e muitas pessoas acreditaram. Culpa das pessoas? Não, a culpa é de quem oculta a informação. Na verdade deveria ser o contrário, assim como esse blog tenta fazer, de quem tem o conhecimento e quer passá-la deveria passar da forma mais completa possível, pois assim a decisão final fica com a pessoa que lê e recebe a informação. Estamos muito acostumados de receber tudo pronto, "mastigado" ao invés de nos informarmos, pensarmos e refletirmos sobre o assunto e tomar uma decisão.

Isso tem atraído opiniões extremistas e radicais, que pouco contribuem e mais atrapalham o acesso a informação. Quando se defende uma opinião fortemente, com poucos argumentos sérios e muita vontade, duvide. Quando se defende algo com mais crenças do que razão, isso deixa de ser ciência e vira religião, segundo uma pesquisadora me falou outro dia. E é bem isso, as informações contra a canola parece mais uma cruzada da idade média do que ciência propriamente dita.

Por último e para finalizar, a canola por não ter boa produtividade aqui no Brasil e ser produzida em uma área pequena, o alto preço no mercado devido ela ser grandemente importada, estimula a presença de lobby contra ela. A soja, o milho e o girassol são produzidos aqui, e por isso a indústria pode espalhar boatos, ou até pagar para espalhar esses boatos para desestimular o consumo de óleo de canola. Agora, porque ao invés disso não faz uma campanha mostrando que a canola é importada e a soja não? Com argumentos sólidos científicos ao invés de dizer que a canola não é uma planta de Deus, por exemplo? Essa parte do lobby é mais especulação, porém sabemos que isso existe pra diversas áreas e sim pode ocorrer, de forma mais oculta e branda, mas contribuindo pra aumentar a imagem negativa da canola.

Espero que esse post ajude a quem tinha suas dúvidas.  E com isso, possa tomar sua decisão com mais clareza e tranquilidade na hora de escolher o óleo para fazer seu arroz de cada dia.

Referências:

http://www.conab.gov.br/OlalaCMS/uploads/arquivos/13_06_10_16_35_08_canolamaio2013.pdf

http://7-themes.com/7004393-canola-fields.html

REGITANO-D`ARCE, M. A. B. Extração e refino de óleos vegetais. In: OETTERER, M.; REGITANO-D`ARCE, M. A. B.; SPOTO, M. H. F. Fundamentos de ciência e tecnologia de alimentos. São Paulo: Manole, 2006a. p. 300-351.

http://abrascanola.com.br/?menu=noticias&id=67

https://www.embrapa.br/web/portal/busca-de-noticias/-/noticia/2034010/situacao-da-canola-na-america-latina

http://abrascanola.com.br/?menu=institucional&sub=cultura_canola