segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Canola: uma planta quase lendária

Nesse post inaugural do blog vamos falar já de uma planta que virou moda falar mal, a canola. Nesse post tentaremos esclarecer um pouco, quebrando alguns mitos que tem sido espalhados por aí, além de tentar explicar os motivos de tantas pessoas falarem mal dessa planta.

Primeiro mito: A canola não é uma planta e seu óleo existe graças a uma invenção da indústria química. As vezes leio algumas coisas na internet e penso: "Uau quanta criatividade! Poderíamos criar muito mais coisas no nosso País." Realmente não sei de onde surgiu isso, mas a canola é sim uma planta, e muito bonita por sinal. Quando a planta floresce o campo é tingido de um amarelo vivo, um espetáculo à parte. Após a flor, forma-se um fruto seco, que são pequenas bolinhas pretas, que se pegarmos percebemos sua oleosidade. Portanto o óleo de canola não é uma invenção, e sim extraído da semente de canola, aderida ao fruto seco.
Campo de canola florido

Segundo mito: A canola na verdade é oriunda da colza, uma planta tóxica aos humanos devido ao ácido erúcico. Essa é uma bela meia verdade. A colza é uma planta que possui um óleo muito semelhante ao da canola, mas possui um composto, que é natural da planta, chamado ácido erúcico que realmente é tóxico aos humanos. Isso impossibilitava a utilização da colza, e seu óleo, apesar de sua ótima composição, rica em ácidos graxos insaturados(gordura polinsturada), só podia ser utilizado em fins não alimentícios. O Canadá então lançou um programa de melhoramento genético para gerar uma variedade de colza, livre do ácido erúcico. Conseguiram, e adivinha o nome? Canola, isso mesmo! CANadian Oil Low Acid, significando que a canola é um tipo de colza que passou pelo processo de melhoramento genético, que faz com que esse novo tipo de colza produza ácido erúcico a níveis bem baixos, dentro do considerado seguro para o FDA (equivalente a Anvisa no Brasil) e orgãos europeus de segurança alimentar, para o consumo humano. Então a canola tem sim um nome oriundo de marketing, mas, ao mesmo tempo, ela foi liberada ao consumo pois tem um óleo tão seguro quanto o de soja. Aliás, é uma cultura muito cultivada na Europa e muito consumida por lá, além de ser a principal matéria-prima para a produção de biodiesel no continente.

Terceiro mito: A canola é uma colza feita por transgenia. Isso gera muita confusão. Melhoramento é o simples cruzamento de plantas (em campo) e a seleção das que possuem as melhores características que desejamos produzir. Já a transgenia é a inserção de um gene de outra espécie na planta para criar essa característica artificialmente. No caso a canola não é transgênica. Mas existe um tipo de canola, que igual ao milho, soja e algodão, possui o gene RR, de resistência ao herbicida Roundup da Monsanto (Glifosato). Essa sim é transgênica, igual a soja e o milho, que igualmente encontramos o óleo no mercado e curiosamente muitas pessoas consomem sem problema algum mesmo sendo oriundos de plantas transgênicas. Porém a canola que é produzida no Brasil não apresenta esse gene RR, sendo então proveniente de melhoramento genético natural.

Quarto mito: O refino do óleo de canola é mais intenso e "modifica" o óleo tornando perigosa sua ingestão. Na verdade a canola teria esse "refino mais intenso" para retirar o ácido erúcico. Mas como a planta já produz pouco não faz sentido. O processo de refino do óleo de canola é o mesmo que o da soja, do milho, do girassol. Sim, isso retira compostos desejáveis como antioxidantes naturais e algumas vitaminas, mas isso acontece em todos os óleos refinados, e mesmo assim eles ainda possuem diversos benefícios, como o alto teor de ácidos graxos insaturados, que podem ajudar a circulação e a prevenção de doenças cardiovasculares entre outros. Se não quer óleo refinado, há opções de azeites gourmet, desde que esteja disposto a pagar um pouco mais para se consumir também os antioxidantes e outros compostos retirados no refino.

Vendo esses argumentos, por que então a canola é tão criticada e rodeada de mitos, defendido e aplaudido como se fossem verdades absolutas?

Hoje há um grande problema: a internet. Nela se pode falar o que quiser, e alguns profissionais se aproveitam da influência de sua profissão e "conhecimento" e começam a perpetuar opiniões de forma como se fosse verdade. Com a canola acontece isso. Leram sobre ela, mostraram uma parte das informações e muitas pessoas acreditaram. Culpa das pessoas? Não, a culpa é de quem oculta a informação. Na verdade deveria ser o contrário, assim como esse blog tenta fazer, de quem tem o conhecimento e quer passá-la deveria passar da forma mais completa possível, pois assim a decisão final fica com a pessoa que lê e recebe a informação. Estamos muito acostumados de receber tudo pronto, "mastigado" ao invés de nos informarmos, pensarmos e refletirmos sobre o assunto e tomar uma decisão.

Isso tem atraído opiniões extremistas e radicais, que pouco contribuem e mais atrapalham o acesso a informação. Quando se defende uma opinião fortemente, com poucos argumentos sérios e muita vontade, duvide. Quando se defende algo com mais crenças do que razão, isso deixa de ser ciência e vira religião, segundo uma pesquisadora me falou outro dia. E é bem isso, as informações contra a canola parece mais uma cruzada da idade média do que ciência propriamente dita.

Por último e para finalizar, a canola por não ter boa produtividade aqui no Brasil e ser produzida em uma área pequena, o alto preço no mercado devido ela ser grandemente importada, estimula a presença de lobby contra ela. A soja, o milho e o girassol são produzidos aqui, e por isso a indústria pode espalhar boatos, ou até pagar para espalhar esses boatos para desestimular o consumo de óleo de canola. Agora, porque ao invés disso não faz uma campanha mostrando que a canola é importada e a soja não? Com argumentos sólidos científicos ao invés de dizer que a canola não é uma planta de Deus, por exemplo? Essa parte do lobby é mais especulação, porém sabemos que isso existe pra diversas áreas e sim pode ocorrer, de forma mais oculta e branda, mas contribuindo pra aumentar a imagem negativa da canola.

Espero que esse post ajude a quem tinha suas dúvidas.  E com isso, possa tomar sua decisão com mais clareza e tranquilidade na hora de escolher o óleo para fazer seu arroz de cada dia.

Referências:

http://www.conab.gov.br/OlalaCMS/uploads/arquivos/13_06_10_16_35_08_canolamaio2013.pdf

http://7-themes.com/7004393-canola-fields.html

REGITANO-D`ARCE, M. A. B. Extração e refino de óleos vegetais. In: OETTERER, M.; REGITANO-D`ARCE, M. A. B.; SPOTO, M. H. F. Fundamentos de ciência e tecnologia de alimentos. São Paulo: Manole, 2006a. p. 300-351.

http://abrascanola.com.br/?menu=noticias&id=67

https://www.embrapa.br/web/portal/busca-de-noticias/-/noticia/2034010/situacao-da-canola-na-america-latina

http://abrascanola.com.br/?menu=institucional&sub=cultura_canola