Saudações aos leitores do
blog, hoje falaremos um pouco de um assunto que sempre levanta muita polêmica e
tem sido alvo de muitas informações e opiniões superficiais prejudicando o
debate sobre o tema transgênicos. Vamos começar?
Primeiramente o que é transgênico e como
surgiu? Os organismos transgênicos recebem a inserção de um gene exógeno, ou
seja, pertencente a uma espécie diferente. A transgenia e o melhoramento
genético de plantas são processos distintos que buscam o mesmo objetivo: a
melhoria das características de campo e o aumento de sua produtividade. Com
isso, esses dois processos são muito confundidos, como vimos no post anterior.
O melhoramento é um processo em que se cruza diversas variedades de plantas na
busca de uma melhor característica procurada. Esse processo é realizado desde o
início da agricultura e pode ser feito arcaicamente ou com uso de técnicas mais
modernas de mapeamento genético. Já a transgenia é um processo que foi criado
pelo homem e sem ele não ocorreria, sendo, portanto, artificial.
No pós-guerra, ocorreu o advento do uso de
produtos químicos e a intensificação do uso da mecanização e de adubos, porém,
o “milagre” feito pelo uso inadequado destes produtos, criou uma grande pressão
de seleção e contaminações comprovadas, sendo a mais famosa a acumulação
trófica do DDT na águia real americana, que é um dos assuntos tratados do
livro: “A primavera silenciosa” de Raquel Carson em 1963. Esse livro trazia à
tona os efeitos do DDT nessa ave, que tinha sua reprodução prejudicada por se
alimentar de animais que já apresentavam altas taxas de contaminação por esse
inseticida, indicando então, seu uso em grande escala. Com essa exposição
fortemente negativa, as indústrias químicas ficaram com suas imagens bastante
prejudicadas, pois seus produtos eram vistos com grande negatividade pelos
consumidores, e a pressão na busca por alternativas cresceu muito. Essa mudança ocorreu também pela reunião da
ONU de meio ambiente que começou em 72, e é realizada a cada 10 anos (Em 92 ela
foi realizada no Rio, a ECORIO92).
Com esse problema, as empresas encontraram
uma solução pela observação de um fato: na busca por alternativas, a espécie Bacillus tunigienses começou a ser utilizada
para controle de pragas com boa eficiência diminuindo o consumo de inseticidas.
Com isso, as empresas pensaram na ideia de criar uma planta que conseguisse ter
a resistência a pragas e combatê-las, como essa bactéria. Era assim que se
iniciava a ideia dos transgênicos. Contudo, haviam entraves a essa ideia, as indústrias
químicas precisavam se unir às de sementes, que eram separadas na época, para
assim, conseguirem a produção dessas espécies geneticamente modificadas. Dessa
forma, na década de 80 e 90 ocorreu a compra de indústrias de sementes pelas
indústrias químicas e foram criados centros de engenharia genética
(biotecnologia) para incrementar as pesquisas e criar variedades transgênicas. Atualmente,
temos os transgênicos com gene RR (Roundup Ready), resistentes a molécula
glifosato, um herbicida pouco tóxico e não seletivo usado no controle do mato.
Já o gene Bt (Bacillus tunigienses)
controla insetos, principalmente lagartas, reduzindo o uso de inseticidas.
Mas o que isso afeta na produção? Significa
aumento de produtividade a curto prazo e possíveis rendimentos maiores com
economia de processos. Com a tecnologia Bt o produtor aplica menos inseticidas,
e com isso, economiza na compra desses produtos e no diesel que seria utilizado
na aplicação. Assim, o agricultor tem um calendário menos apertado, além é
claro, do ganho ambiental com o menor número de aplicações de inseticidas. Já
no caso da tecnologia RR, a planta é resistente ao glifosato, como já dito
acima, e isso faz com que, ao invés do produtor aplicar diversos herbicidas
para controlar diferentes tipos de plantas invasoras, ele aplica somente um. Isso
gera economia de aplicações, diminuindo o gasto de diesel, e a aplicação de um
herbicida pouco tóxico na escala de toxicidade da ANVISA, podendo haver um
ganho ao produtor em tempo e praticidade, além de um possível ganho ambiental
com o uso de um herbicida menos danoso ao ambiente, ao invés de um usar um
cartel de herbicidas, sendo muitos deles altamente persistentes no ambiente.
Outro tipo de transgenia foi a produção de vitamina A pelo arroz no Sudeste
Asiático evidenciando que futuramente, com a transgenia, podemos ter plantas
mais produtivas e nutritivas, já que o processo de alteração genômica é mais
rápido que o melhoramento genético e mais abrangente, já que podemos criar
plantas com características difíceis ou quase impossíveis de se encontrar no
gene natural da maior parte das plantas cultivadas atualmente.
Mas se parece tão positivo, porque falam tão
mal? Primeiro, já foi dito o desconhecimento da maior parte das pessoas da
diferença entre melhoramento genético e transgenia. Com isso, somado ao temor a
grandes empresas nos processos artificiais e na ingestão de alimentos não
naturais, as pessoas ficam receosas ao assunto. Há sim pesquisas falando sobre
a possibilidade dos alimentos transgênicos serem instáveis e contaminar o nosso
material genético podendo causar tumores, porém nada foi comprovado em seres
humanos. Outros problemas são os possíveis impactos ambientais, pois os animais
podem ser afetados ao consumir o transgênico, principalmente aves, e no caso do
gene Bt, a fauna de insetos nativos pode ser muito afetada, gerando um possível
desiquilíbrio ambiental. O glifosato está sendo usado em excesso, causando a
seleção de plantas resistentes, como a buva, diminuindo a eficiência e fazendo
com que o produtor necessite recorrer a herbicidas mais tóxicos novamente. Além
disso, o glifosato quando é muito utilizado pode causar uma série de doenças,
conforme estudos da comunidade europeia. Com isso, vemos que as plantas
transgênicas causam uma forte pressão de seleção por serem espécies que têm
pouca variedade genética. Por causa disso há a “quebra de resistência” mais
rapidamente, caso que já vemos com as lagartas em milho e algodão Bt, havendo a
necessidade do lançamento de um novo Bt por parte das empresas. Isso demonstra
que os transgênicos podem não estar sendo aproveitados da melhor forma
possível. E também, o pólen das plantas transgênicas pode contaminar plantas
não transgênicas, e além disso, pode contaminar o meio natural, podendo ter
consequências e desequilíbrios, fato ainda não comprovado. O que foi comprovado
é que essa contaminação de pólen contaminou os cultivares crioulos de milho no
México, cultivados há milhares de anos pelos povos que lá residem. O México é
centro de origem do milho, por isso há uma diversidade de variedades de milho
gerando diversidade gênica, muito importante para o melhoramento genético. Com
a contaminação, uma grande quantidade de genes pode ter sido perdida, acarretando
grande danos ao próprio ser humano e a agricultura.
Quais países usam? No Brasil, EUA, China,
Argentina, Canadá e em outros países, o transgênico é liberado. Na Europa e
Japão há resistência e proibições ao uso da tecnologia.
Os transgênicos no Brasil, como é
regulamentado? O Brasil tem controle tanto da pesquisa quanto do cultivo de
espécies transgênicas. A CTNBio é uma comissão que tem representantes de
praticamente todos os segmentos da sociedade brasileira, e ela utiliza normas e
leis relativamente rígidas. Este tipo de controle tem aspectos positivos e
negativos; para as empresas que trabalham com transgênicos, representam
dificuldades e maiores exigências de investimentos em tempo, pessoal e
pesquisa; para a sociedade, representa uma segurança maior para a saúde humana
e para a preservação ambiental. Com isso, demora-se 2 anos para a variedade
transgênica ser liberada após anos de estudos. O que se questiona é, se até
agora não se conseguiu identificar ao certo possíveis impactos com mais de 10
anos de estudos, será que só dois anos são suficientes para se liberar essa
variedade atestando que é segura do ponto de vista ambiental, social, econômico, nutricional e do ponto de vista da saúde? Mas, como é um órgão de confiança, neutro e reconhecido, podemos ter
então um pouco mais de certeza no uso e controle desse tipo de tecnologia.
E o que podemos concluir com toda essa
informação? Esse blog tem como objetivo trazer mais informações com qualidade,
para as pessoas tomarem uma decisão melhor, com melhores argumentos. Nesse caso,
o blog tentou passar uma visão neutra, até porque compartilha dessa visão para
esse assunto. A maior parte dos malefícios e danos dos transgênicos tem poucas
provas científicas, e apesar dos ótimos benefícios, usar essa tecnologia sem o
devido cuidado pode ser um grande desperdício no fim. Então fica a frase de um
professor moderadamente contrário, em que ele afirma que na opinião dele, os
transgênicos são uma grande tecnologia, que pode vir a ser muito útil e
importante, porém é preciso ter cautela e cuidado para não desperdiçá-la ou
cometer um grande erro que leve a um grande impacto.
Referências:
Abreu, A. A. (organizador).
Seminário Internacional Transgênicos no Brasil. São Paulo, Pró-Reitoria de
Cultura e Extensão Universitária da USP, 2005, 308 p.
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